O MAL-ESTAR NA SUBJETIVAÇÃO

Jean-Pierre Lebrun

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Sumário

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Apresentação

..........O mal-estar na subjetivação é o resultado das discussões de Lebrun com psicanalistas que se reuniram em torno do tema “Os novos desvarios do sujeito”, e cujas intervenções deram origem ao livro com o mesmo título.
Aqui publicamos apenas sua intervenção, acrescida de seu artigo “Os paradoxos da parentalidade”, ambos contribuições relevantes para a discussão e a elucidação dos desafios que as novas formas clínicas impõem ao trabalho do psicanalista.
..........A clínica psicanalítica confrontou Freud com muitas questões que ele generosamente soube acolher, ainda que não tivesse respostas que, até para ele mesmo, fossem satisfatórias. Dessas questões, duas foram salientadas por Lacan: o que quer uma mulher e a questão do pai. As modificações que atingem o lugar e a função do pai, assim como a emergência da questão do feminino e seus efeitos devastadores, perduram como problemática que retornam na clínica dos psicanalistas de hoje. Lebrun, em discussão com Melman e sua caracterização das “novas formas clínicas” que especificariam uma nova economia psíquica, na esteira do fenômeno hodierno da “degenerescência catastrófica”, segundo a denominação formulada por Lacan, propõe examinar a incidência na subjetivação do mal-estar na civilização.
O que seria então o mal-estar na subjetivação?
..........Uma indicação inicial desse tema, encontramos no prefácio que Freud escreve para o livro de August Aichhorn, Juventude abandonada (1925), no qual faz menção à condição de “inacabado” que caracteriza a estrutura psíquica e a atitude do “jovem desgarrado e desamparado”.
Assim, quando não se deu um acabamento da subjetivação, “como na criança, no jovem desamparado e, em regra geral, também no delinquente impulsivo, é preciso fazer outra coisa que não uma análise, ainda que coincidindo com esta em seu mesmo propósito”. Que outra coisa, além do que o dispositivo analítico freudiano dispõe, poderia ser proposta?
..........Ora, caracterizar a lógica das novas formas de subjetividade e seu inacabamento, assim como propor indicações de uma posição ética do analista que permita acolher o mal-estar do neossujeito, é o que pretende Lebrun.
..........Pela primeira vez na História, registramos uma fratura na solidariedade entre o funcionamento social e o funcionamento da família, sendo que esta passa para uma posição de antagonismo ao social. A consequência dessa fratura se evidencia no fato de que a criança, por não ser mais forçada a se inscrever no social pelos seus primeiros outros, encontra-se espontaneamente convidada a recusar o trabalho de subjetivação que a ordenava ao mesmo tempo a renunciar à sua onipotência infantil e a se separar de seus primeiros outros. Assim, o sujeito contemporâneo, pós-moderno, supostamente autônomo, desembaraçado de qualquer heteronomia, se acredita no exercício de uma autonomia imediatamente adquirida que lhe proporciona a ilusão de que bastaria liberar-se dos constrangimentos impostos pelos outros para vir a ocupar um lugar de realização. Quais os possíveis efeitos da economia do trabalho de subjetivação que implica o risco da incontornável alienação prévia ao trabalho de separação que exige a autonomia? Como elaborar a renúncia à onipotência infantil quando isso não foi feito no tempo hábil e com a ajuda dos outros para apoiar a criança na alteridade?
..........Mal-estar na subjetivação pode ser tomado como uma leitura do mal-estar na civilização pós-moderna. Seguindo essa sugestão, aventamos a hipótese de que as formulações de Lebrun, que se referem a um mundo sem limite, ao futuro do ódio, ao viver juntos sem outrem, às cores do Édipo contemporâneo e ao mal-estar na subjetivação, assim como a nova economia psíquica determinante de novas formas clínicas específicas do neossujeito segundo a proposta de Melman, não deixam de ser alternativas aos fatos clínicos particulares reunidos em termos imprecisos e problemáticos sob a denominação de estados-limites ou borderline. Em uma frase, Mal-estar na subjetivação é um livro sobre o que se costumava denominar de casos borderline.
..........O interessante é que o autor passa ao largo da discussão dessa terminologia e faz uso de outras indicações, evitando assim introduzir uma nova entidade clínica. Tais indicações do sujeito e do social em estado de experiência limite são então encontradas no exame do declínio do patriarcado, nos efeitos do holocausto perpetrado pelo regime nazista, na utopia mortífera do novo milênio que se pretende liberada das leis da linguagem, na crise da representância fálica e seus efeitos de degenerescência catastrófica. Em outras palavras, o mal-estar na subjetivação caracteriza sujeitos que parecem viver em uma fase de latência que se prolonga indefinidamente, como órfãos do simbólico, sem que possamos situá-los em estruturas como a neurose, a psicose ou a perversão.
..........Assim, Lebrun compõe seu livro em dois tempos: descrição e elucidação da lógica imanente da pós-modernidade, em seus efeitos sociais e subjetivos, e formulação de pontos de apoio para a sustentação de uma clínica psicanalítica que queira efetivamente acolher o mal-estar característico do neossujeito. Duas formulações lançadas por Lacan são decisivas no que o autor nos propõe: a pluralização dos nomes-do-pai e a degenerescência catastrófica resultante da forclusão do Nome-do-pai em benefício do poder de nomear-para, que institui uma nova ordem. Ora, a progressiva substituição da função nomeante do pai pela operação de nomear-para tem como consequência imediata a inversão do progresso civilizatório descrito por Freud (passagem do matriarcado, evidência sensível, para o patriarcado, conjectura). Assim, se a mãe se considera capaz de realizar a operação de
nomear-para, não há mais necessidade de intervenção do terceiro. Isso determina algo que se pode denominar de um ressurgimento do matriarcado, em sintonia com os progressos da civilização científica, que autoriza o sujeito a se privar do Nome-do-Pai e assim a se esquivar do indispensável trabalho de subjetivação que é requerido de quem quer viver no desejo. O mal-estar na subjetivação implica então uma anulação da boa distância entre gozo e desejo, que tende assim a precipitar o sujeito na degenerescência catastrófica, ou seja, uma ordem de ferro evacuada do peso da fala do sujeito, na qual se substitui a falta a ser e o desejar pelo fazer e agir.
..........Ainda há lugar para a clínica psicanalítica nessa nova ordem? Tal é a questão que Lebrun enfrenta com sutileza e apresenta pistas muito pertinentes para os psicanalistas que se deixam confrontar com essas novas formas clínicas. Ele localiza uma pista na indicação de Lacan de que a psicanálise reintroduz o Nome-do-Pai na consideração científica, ou seja, a questão de saber de onde o sujeito pode sustentar o singular de seu dizer. O primeiro passo então é fornecer as condições para que se possa reatar com o falar e sua função, ou seja, que se possa restabelecer uma confiança no ato de falar com outrem. Isso certamente requer uma posição do analista diversa da posição objeto a e da operação corte, de modo que possa de preferência encetar algo que se aproxima da noção de construção proposta por Freud. Nessa proposta, o trabalho analítico incidiria inicialmente no restabelecimento do processo de subjetivação que estaria lesado ou mesmo destruído. Assim, Lebrun se propõe a “pensar a ética da psicanálise não mais unicamente como uma ética de sujeito, mas antes como uma ética da subjetivação”.


Mario Fleig