Psicoterapias de criança,
crianças em psicanálise

Jean Bergès
Gabriel Balbo

Apresentação do livro
Sumário

Introdução

..........Colocar o problema da distância entre a psicanálise e a psicoterapia parece-nos mais justificado e estimulante quando está em questão tratamentos de crianças. Com efeito, é a respeito disso que há cinqüenta anos aproximadamente emerge com insistência uma interrogação sobre o fato de saber se a demanda relativa aos pequenos e aos adolescentes,
quer provenha da criança, da família ou das instituições, é um pedido de tratamento ou uma demanda totalmente diferente.
..........Nessa ordem de ideias, as estruturas institucionais que visam prevenir, avaliar ou tratar de ocorrências que lhe são dirigidas, nos parecem ter sido concebidas e realizadas como respostas ao mal-estar dos adultos. Uma enquete em relação às estruturas neurobiológicas em desenvolvimento na criança, ou uma pesquisa visando, às vezes prosaicamente, a adaptação pura e simples são especialmente constitutivas de tais respostas, que privilegiam sempre a mediação corporal.
..........A psicanálise não negligencia nem o corpo nem suas funções, mas ela não os apreende como o objeto principal de seu trabalho, que é atinente ao inconsciente e às suas formações. Quanto ao analista, nessa perspectiva,
sua transferência não é de modo algum guiada pela importância do dano funcional ou orgânico, mas pela linguagem, o discurso e suas exclusivas associações livres, as quais sustentam a transferência da criança em sua relação com o seu tratamento, bem como com seu analista.
..........Esta dialética transferencial supõe, de parte do psicanalista, que ele não especifica sua ação no tratamento por um saber que lhe tenha sido previamente fornecido pelos dados da anamnese, mas que, em contrapartida, sempre são exigidos por parte do psicoterapeuta. No que lhe concerne, longe de postar-se sobre um saber teórico ou clínico que, aliás, não lhe falta, o psicanalista formula a hipótese de que a criança em tratamento com ele não é em absoluto o objeto desse saber constituído, que pode ser creditado a seu próprio desejo de sujeito de saber ele-mesmo alguma coisa, de seu inconsciente. No entanto, o analista não deixa de se interrogar sobre o alcance e as consequências de seu ato, bem como fez Freud e depois Lacan, que não faltaram na busca de determinar quais poderiam ser os princípios de seu valor e de seus efeitos,
tanto no adulto quanto na criança.
..........Nossa obra traz sua contribuição a essa pesquisa que, entre outras direções, pergunta-se por que, depois da Segunda Guerra e apesar da clara posição de Melanie Klein, impôs-se cada vez mais a palavra psicoterapia, quando se trata incontestavelmente de análises de crianças, dirigidas por psicanalistas.